Cortina de papel


Quem passa diariamente pela Rua Consolação, centro de São Paulo, está acostumado com a paisagem cinza, e com o barulho de carros que domina o local e torna a viagem rotineira. De uns tempos para cá, os transeuntes devem ter repararado em algo diferente, algo colorido. Trata-se do prédio Germano Leardi, no número 574, onde funciona a empresa ClearSale, que recebeu nos últimos meses uma decoração diferente. Sua fachada de vidro está agora repleta de post-its (artigo de papelaria muito usado entre os universitários, para tomarem notas) coloridos, arranjados de maneira a formar frases e desenhos variados e de temática jovem.

O projeto se chama Post It War, e surgiu na empresa espontaneamente a partir de reuniões semanais feitas entre os funcionários com a intenção de integrá-los e estimular sua criatividade. “Reunimos 330 funcionários, e decoramos a fachada em meia hora. Foi a ideia mais bem sucedida que tivemos no projeto”, conta Daisy Mola, 49, coordenadora e líder das reuniões.

Os desenhos formados pelos pequenos quadrados coloridos dão a sensação de se olhar para um vídeo-game antigo. As formas pixeladas remetem a ícones da cultura popular oitentista, como os jogos Super Mario, Pitfall e o porco espinho azul Sonic, porém trazendo também referências ao que está ocorrendo de atual, como o personagem Bob Esponja e um pássaro provindo de Angry Birds

A iniciativa teve inspiração na Europa, em especial na França e nos Estados Unidos, locais em que esse tipo de movimento já tem alguns exemplares, todos devidamente fotografados e organizados em um site. Mas os mentores do projeto aqui no Brasil confessam que não tinham idéia da proporção que isso tomaria. ”Tudo começou com um botão ‘like’ do Facebook. Todos os funcionários se envolveram e em pouco tempo decoramos a fachada inteira”, dizem os dois funcionários da empresa, Marvin Ferreira, 21 e Cinthya Saito, que tiveram a ideia depois de verem alguns modelos na internet e resolveram reproduzir a mão azul e branca em uma das vidraças. “A gente levou pra empresa inteira, e acabou virando essa brincadeira”, diz Marvin com um sorriso no rosto. “A gente não sabe o que é verdade e o que não é, mas esses dias veio um homem que se identificou como relacionado ao Post-it e disse que esse é o maior prédio do Brasil a fazer isso”, Daisy fala, orgulhosa, comparando outros edifícios que participam do movimento no país.

Porém, a ação divide opiniões. Fidélis Carlos, 54, diz que não passa de “poluição visual” e que para ele aquilo simplesmente não é arte. “Pelo menos não para minha faixa etária”, diz, dando risada. Enquanto Tânia Serafim, 47, possui uma posição contrária. “Ficou muito bonito, deu uma diferenciada na paisagem”. Quando perguntada sobre o que as crianças acham, a babá revela que elas gostam muito e que sempre comentam quando passam em frente ao decorado prédio.

Arte ou não, a verdade é que o local chama a atenção, destacando-se dos outros pelo uso das cores fortes que os pequenos papéis possuem, deixando pelo menos o diferente marcar uma das ruas mais famosas da cidade. A decoração, que é de fácil visualização por todos, permanecerá por tempo indeterminado.

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