Por que lembrar do dia cinco de novembro ?


“Remember, remember, the 5th of november
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot”

Quatro linhas. Quatro linhas que soam simples, curtas e sonoras. Nada de mais se essas quatro linhas não tivessem inspirado uma das Graphic Novels mais importantes já feitas, que por sua vez levaram a criação de um filme que marcou uma geração e serviu de símbolo para a que a população se revoltasse, se unisse, derrubasse ditadores, presidentes, e – no caso do Brasil – fosse às ruas no depois de mais de vinte anos.

A canção , que poderia ser traduzida como algo parecido com ” Lembrem, lembrem do v_for_vendettacinco de novembro. A pólvora, traição e a conspiração . Eu não vejo razão pela qual a conspiração da pólvora. Deveria ser esquecida.”  cita a Conspiração da Pólvora, evento histórico onde católicos tentaram explodir o parlamento inglês em 1605 , matando todos os que ali estavam presentes, incluindo o rei da época, Jaime VI & I. Entre os participantes da ação estava Guy Fawkes, soldado responsável pela pólvora que dá nome à conspiração e que explodiria o alvo, porém, a ação foi descoberta, Fawkes foi encontrado, preso, torturado e entregou seus comparsas antes de morrer. O principal dessa história, porém, é que apesar de Fawkes ter morrido 300 anos antes da invenção da fotografia, seu rosto é fotografado e filmado milhares, milhões de vezes por dia. Fawkes é o nome por trás de alguns apelidos que tomaram seu rosto emprestado na última década, entre os mais famosos estão V e consequentemente Anonymous.

O escritor inglês Alan Moore usou a história da Conspiração como fundo de um futuro distópico onde se passa a trama de V de Vingança. Na HQ, V é um ex-prisioneiro de um regime fascista do final do século XX, que pós ser usado como cobaia,  tem seu corpo e sua mente alterados, buscando vingança com aqueles que lhe causaram sofrimento. Personagem anárquico e acido utiliza uma máscara que representa Guy Fawkes, e tem como plano justamente explodir o parlamento londrino no dia cinco de novembro. A Graphic Novel, publicada pela Vertigo conquistou critica, público e rendeu filme em 2005, que com algumas adaptações na trama apresentou o texto de Moore para um público não habituado aos quadrinhos,  espalhando as ideias de V.  Em uma das cenas finais do filme, V distribuiu máscaras como a sua para a população, que sai às ruas lutando contra a ditadura que lhes cercava. Essa imagem  de milhares de mascarados pelas ruas de Londres foi fonte de inspiração fora das telonas, fazendo com que pessoas nos Estados Unidos, Londres, Egito, Brasil e outros tantos tentassem replica-la.

Claro que não dá para afirmar que as manifestações e protestos pelo mundo não aconteceriam se Moore não tivesse escrito sua obra – soaria até muito ingênua uma afirmação  que ignora todos os outros fatores que levaram essas ações acontecerem -, porém com toda certeza elas seriam diferentes, ao menos em sua representação. As máscaras de Fawkes viraram o símbolo de luta da população contra o opressor,  diversas brazilprotestomascarafogo17junapfrases de V se espalharam por redes sociais com tom de palavras de ordem, e a canção que abre esse texto virou hino para muitos.  Os enfrentamentos e as dificuldades que iam acontecendo nas manifestações brasileiras também ganharam contornos claramente inspirados na trama de Moore, tudo virava incentivo, os problemas viraram provações, provocações, que V enfrentaria. What Would V Do?  – O que V faria? – era uma pergunta que pairava no inconsciente de muitos ali presentes. Não é atoa que a prisão de manifestantes e jornalistas que portavam vinagre (substância que alivia os efeitos do gás lacrimogêneo)  deu inicio a uma serie de sátiras, protestos e movimentos intitulados V de Vinagre. O grupo Anonymous, utilizando a máscara de Fawkes se organizou e realizou  ataques cibernéticos a grandes empresas, fazendo com que empresários de todo o mundo temessem o irônico sorriso que estampado na boca das máscaras. Fawkes virou o fantasma do natal passado, presente e futuro de poderosos que há muito não se assustavam, fazendo  palavras do personagem de Moore, como “O povo não deve temer seu estado. O estado deve temer seu povo“, se tornarem cada vez reais.

Claro que muitos dirão que não precisam saber disso para se manifestar, o que pode até ser verdade, porém eu não vejo razão pela qual a Conspiração da Pólvora deveria ser esquecida.

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